Com 19 anos e a estudar no 1.º ano de Psicologia, na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, Francisca Fonseca vem contar-nos das mudanças destes últimos tempos.

Para mim, como aliás para qualquer pessoa, entrar na faculdade foi uma mudança tão grande que tudo o que conhecia antes parecia já não se aplicar a esta realidade tão diferente e infinitamente mais desafiante.

Não é fácil passar de caras conhecidas, de manuais e exercícios, de “aquele professor não gosta de mim desde o sétimo ano” e de “o teste é da página 67 até à página 125”, para um mundo em que dependemos quase totalmente de nós para alcançar o sucesso. Numa faculdade em que somos um número num anfiteatro com 200 pessoas, em que a correria entre slides, capítulos para ler e trabalhos de grupo com pessoas que nunca vimos sequer na faculdade, nos deixa confusos, desorganizados e, muitas vezes (para mim pelo menos), totalmente desamparados.

Pode parecer mau, mas difícil e mau são conceitos bem diferentes e, neste caso, tenho a certeza de que estão longe de serem sinónimos. Em meros meses, o sentido de responsabilidade, o esforço pessoal e a necessidade de organização foram aspetos que vi  crescer em mim a uma velocidade que achava ser impossível.

Só que depois, veio a Covid-19. Ainda estava eu a descobrir o que era isto da faculdade e já estou de fora outra vez…


«Não há métodos infalíveis nem ritmos transversais.»


Mas, como disse antes, difícil e mau são coisas diferentes, é aí mesmo que me vou focar.

Com aulas online a saírem de forma irregular, capítulos e capítulos de livros para ler e trabalhos demasiado subjetivos, esta quarentena deu-me a oportunidade de organizar o estudo, de ter tempo para dar um passo atrás para ter uma noção exata de tudo o que é exigido de mim. Estar em quarentena não significa ter tempo para fazer mil coisas e ser o máximo a tudo, já desisti dessa utopia. Mas dá-nos mais noção: mais noção do que temos de fazer, de como está a nossa capacidade de concentração, dos pontos fortes e fracos do nosso método de estudo.

Descobrir como funcionamos é um primeiro passo importante, aliás, o central na minha opinião. Não há métodos infalíveis nem ritmos transversais. Há quem funcione bem com horários detalhados ao minuto, há quem consiga ser produtivo o dia todo, outros mais de manhã e alguns conseguem dar tudo em noitadas de estudo.

Falando um bocado do meu método em particular, já percebi que comigo os horários fixos não resultam. Somos mais do que estudantes, somos filhos, somos irmãos, tios, primos e espera-se mais de nós do que estar fechados no quarto a estudar o dia todo. E essa realidade não permite que o meu tempo de estudo dependa só de mim. A solução que arranjei foi estabelecer metas diárias: um conjunto de tarefas que tenho de cumprir independentemente da hora a que o faça. Assim, cada dia à noite planeio como será o dia seguinte e reflito sobre a eficácia do dia que passou. Com esta constante avaliação e nova elaboração é possível ir “afinando” o nosso plano diário, percebendo o quão exigentes podemos ser sem nos tornarmos irrealistas.

Testemunho Francisca Fonseca 02

No que diz respeito à motivação, aqui está um desafio grande. É difícil manter a motivação neste ciclo de preguiça, de cansaço e ilusão de tempo infinito (sim, ilusão não se deixem enganar, o ritmo acelerou não abrandou, por muito que pareça). Falar sobre motivação é complicado, por ser um fator altamente subjetivo e variável. Por isso, em vez de fingir ter a receita universal da motivação (que não acredito que exista), vou antes falar-vos do que me motiva.

A maior evolução que vi em mim, do primeiro para o segundo semestre, foi a tomada de consciência de que, o que estou a aprender e estudar agora, irá pesar no quão boa profissional serei no futuro. Isto é importante e é uma diferença muito grande entre o secundário e a faculdade. Sermos bons a Filosofia não nos aproxima diretamente do sucesso profissional enquanto contabilista, por exemplo.

Na faculdade, é mais fácil de entender as consequências do nosso estudo na profissão que iremos desempenhar (na maioria dos casos). Isto é o principal foco da minha motivação. Não sou uma pessoa de meios termos e a vontade de ser uma pessoa relevante na minha área, dá-me força para querer estudar e ultrapassar a simples positiva para passar.


«O proveito que se retira de cada coisa depende maioritariamente do uso que lhe damos


Em isolamento, fazer projeções do futuro parece ser uma realidade recorrente: o constante planear das viagens que vamos fazer quando tudo isto passar, o sonho de combinar os mais variados planos com amigos aqui e ali, os festivais, as festas e a praia estão sempre na nossa cabeça. Proponho então que esse futuro seja o nosso motor de motivação, pensar para além do “próximo verão”, da “próxima viagem” e das “próximas tardes de esplanada”, que pensemos como podemos usar este tempo a nosso favor, a favor do nosso crescimento profissional, a favor da área na qual vamos trabalhar, a favor do crescimento do nosso país e do mundo. É uma projeção mais longínqua sim, mais complexa, mais difícil, porém, não irreal. Mas o difícil, como já me fartei de dizer, não é mau e uma adaptação pode sempre ter consequências positivas, quando vivida de forma matura.

 

Resumindo, realço a importância de nos conhecermos, aos nossos ritmos, aos nossos objetivos e às nossas distrações. E, acima de tudo, reconhecer que o proveito que se retira de cada coisa depende maioritariamente do uso que lhe damos!