A professora do Ensino Básico, Cândida Jardim, relata a forma como se tem adaptado ao contexto de aulas a distância, detalhando o papel de algumas das ferramentas tecnológicas que encontrou.
Acredito que tudo o que acontece tem o seu propósito. Teremos de reaprender a dar aulas, a comunicar... Esta pandemia provocada por um vírus tão poderoso veio trazer uma mistura de sentimentos que ainda estamos a procurar gerir e reagir. Talvez por ter um temperamento algo hiperativo, não me detive muito à espera de diretrizes e procurei encontrar soluções. Fui tateando caminhos, avançando e recuando, numa procura de tornar mais eficiente o trabalho que ia desenvolvendo.
Na semana que o governo decidiu encerrar as escolas, eu estava a iniciar com os alunos (do 3.º ano de escolaridade) a obra A Floresta, de Sophia de Mello Breyner Andresen, como consequência e motivação de uma visita de estudo ao Jardim Botânico do Porto, onde residiu a autora. Não poderia deixar morrer o interesse pela obra. Como iria resolver?
Em tempos tinha aprendido a fazer formulários e pensei que poderia utilizar essa ferramenta para explorar a obra. Assim foi. A cada experiência de construção de um formulário (um por cada capítulo) ia descobrindo novas funcionalidades, que aplicava. Os alunos liam um capítulo, respondiam às questões e eu enviava o feedback. Ainda estamos nesse processo.

Tenho que confessar que a turma que leciono é especial. São 25 alunos incríveis de quem gosto muito, cada um com as suas particularidades. Às vezes é difícil gerir tantas diferenças mas tenho a sorte de, todos os dias, ter vontade de estar com eles, de os motivar, de aprendermos juntos. Lembro-me que, na semana que antecedeu o encerramento das escolas (em que já tínhamos condicionado os nossos gestos de proximidade), uma aluna dizia-me: «Tenho saudades dos teus abraços». Longe de imaginarmos que iríamos ficar tanto tempo longe uns os outros.
Mas esse longe poderia ser tornado menos doloroso. Tinha de encontrar a forma de estarmos perto. Foi então que comecei por pesquisar algumas plataformas que iam sendo sugeridas e, em contacto com alguns
encarregados de educação, optamos por uma. Esta experiência revelou-se muito interessante: os alunos ficaram muito entusiasmados por se verem. Verificou-se que se ajudavam uns aos outros sobre as dúvidas que tinham na plataforma.
Eles aprendem muito rápido. Pensamos, lemos, corrigimos exercícios, escrevemos textos, pontuamos, desenhamos e até brincamos... Mas ainda algo me inquietava: Enviar fichas de trabalho, por mail, depois recebê-las digitalizadas,
corrigir e enviar comentários um a um, tornou-se muito cansativo e pouco produtivo. Pesquisei e comecei a embrenhar-me na procura de algo em que os alunos pudessem treinar, ocupar o tempo e que fosse mais interativo em termos de feedback.

Na plataforma Quizizz, criei um quiz e enviei para os alunos. Entretanto, ganhei o gosto e criei mais alguns que fui disponibilizando e partilhando com os meus alunos e com os meus colegas professores. Fui escutando a opinião dos alunos e verifiquei que eles, para além de fazerem as propostas que eu ia lançando, iam também à procura de outros, de acordo com os seus interesses. Isso é muito bom.
Tenho consciência que tenho muito a aperfeiçoar, que nada substitui as aulas presenciais, principalmente quando falamos nas idades correspondentes ao 1.º ciclo. Mas acredito que é possível tornar menos penoso, para todos, este período em que é necessário estarmos perto, de outras maneiras, aprendendo de diferentes formas, tornando-nos e tornando-os mais autónomos. Arriscando, todos, o desafio de adquirir novas competências.
O mais importante é ver este tempo como um novo desafio e uma nova oportunidade. Estamos todos à prova, não para mostrar que somos melhores uns do que os outros, porque esse espírito é um dos aspectos que tem de acabar, mas porque queremos dar a volta por cima, porque continuamos a amar a vida, a amar o que fazemos e a querer o melhor para a educação das nossas crianças.
Cândida Jardim é professora na Escola Básica do Carregal, no Agrupamento de Escolas de Ovar.


