A psicóloga escolar do Agrupamento de Escolas de Montemor-o-Velho, Anabela Mendes, partilha algumas das questões que podem inquietar estudantes e pais em isolamento. 
 
Após uma primeira fase de alguma euforia, decorrente da ideia de poder fazer uma pausa da escola/trabalho, começaram a emergir as emoções antagónicas de medo, angústia e tristeza, face aos acontecimentos noticiados diariamente
 
Em oposição às aparentes "feriazitas", as pessoas começaram a perceber que teriam de ficar mais tempo, com as suas rotinas alteradas, privadas de contactos e das atividades que os gratificavam. Em oposição à ideia de que se tratava de mais um vírus gripal, o crescimento exponencial, à escala mundial, de contágios e mortes, abanou e fez despertar a ansiedade.
 
A incerteza em relação ao que vem aí disparou! Quanto tempo durará a situação de emergência? Quantos casos mais surgirão? Quem sobrevive? Como vou aguentar esta situação? Que futuro financeiro nos espera? Um sem número de questões que fervem dentro de quem se sente inválido para agir, pois foge ao seu controlo.
 
Porque reagimos de formas diferentes perante as mesmas situações, se há quem vá lidando com tudo isto com relativa resiliência, também há quem reaja de forma disfuncional, seja procurando obsessivamente informações sobre o surto de Covid-19, seja isolando-se e rejeitando o contacto com os amigos ou a família ou ainda reagindo com agressividade, culpando-se e culpando tudo e todos!
 
 
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As alterações do sono e do apetite, as cefaleias, as indisposiçõe abdominais, a taquicardia, as tonturas, a sensação de dispor de todos os sintomas da Covid-19, a insistência em conversas de teor muito negativo, catastrófico e carregados de "se", podem ser sinais de necessidade de um "ombro amigo".

Quando não se consegue ajudar, existem redes de apoio. Os psicólogos escolares continuam em sistema de teletrabalho, disponíveis para apoiar, mas também os psicólogos clínicos dos vários hospitais e a Ordem dos Psicólogos. No meu caso, trabalho em duas escolas (meio tempo em cada uma) e, logo no início, esclareci a comunidade educativa da minha disponibilidade para ajudar.

Mais recentemente, contactei todos os Encarregados de Educação dos alunos que vinham sendo seguidos nos Serviços de Psicologia e Orientação para relembrar que me poderiam contactar sempre que necessitassem. Durante esta semana, decorrendo as reuniões de avaliação do segundo período (por videoconferência, claro!), é esse o foco! Há que articular com os Diretores de Turma, para aferir procedimentos e progressos.

 

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Quanto às condições facilitadoras de uma forma de viver isto com alguma sanidade, são inúmeras as sugestões que proliferam nos media. Apenas me parece que há também necessidade de estar atentos à possibilidade de tanta informação poder ser sentida como pressionante. Ou seja, da mesma forma que reagimos diferentemente às situações, também necessitamos de ajudas diferenciadas.

 

Aquilo que resulta bem com uns, pode ser sentido como fonte de ansiedade para outros. Portanto, antes de mais, há que mostrar disponibilidade para escutar, dialogar com serenidade (dentro do possível!), deixar bem claro que se trata de uma situação excecional que incomoda todos e, como tal, não somos anormais se reagrmos de forma diferente dos que nos rodeiam! E incluir uma boa dose de afeto, gerida com a necesária firmeza, para que não se caia na tentação da acomodação e do "deixar andar" que leva a mau porto!
 
Anabela Mendes é psicóloga escolar no Agrupamento de Escolas de Montemor-o-Velho e na Escola Artística do Conservatório de Música de Coimbra.