A psicóloga escolar do INETE - Instituto de Educação Técnica, Ana Baio, explica quais são algumas das boas-práticas a adoptar durante o tempo de isolamento.


Que tipo de sentimentos podem resultar de uma situação de isolamento?

O isolamento social e o facto de ter de ficar em casa são sentidos pelos jovens de forma muito diferente consoante os seus interesses e características pessoais. Assim, enquanto que para um aluno de programação ficar em isolamento social em casa, pode não fazer grande "alteração" ao que gosta de fazer (pode programar, jogar e participar nos foruns, enquanto conversa online com os amigos), para um aluno de mecatrónica automóvel (que nos tempos livres gosta de estar a jogar futebol ou numa oficina) ficar em casa pode alterar e muito o seu bem estar.

É importante lembrar que todos somos diferentes e, apesar da maioria dos jovens gostar das novas tecnologias, para alguns elas podem não fazer parte dos seus interesses. Para estes alunos este isolamento pode ser mais difícil. Se acrescentarmos que, culturalmente, em algumas áreas profissionais, predominantemente masculinas, existe alguma dificuldade em expressar o que sentimos, as consequências do isolamento também poderão ser muito diversas.

De um modo geral, é normal que todos nós, perante o isolamento, sintamos ansiedade, medo, preocupação, tensão e perda de controlo da situação. Se conseguirmos lidar com estes sentimentos de forma saudável, conseguiremos proteger-nos, cuidar de nós e dos outros.

 

Que tipo de auxílio está disponível para os estudantes e encarregados de educação que sintam que necessitam de ajuda? De que forma é que os psicólogos escolares do INETE continuam em contacto com a restante comunidade educativa?

O INETE tem duas psicólogas (uma da área de orientação escolar e outra clínica) que, neste momento, estão disponíveis por e-mail, skype, entre outras formas de contacto. Os contactos mantêm-se, tal como na escola, só que agora remotamente, nomeadamente através da participação no conselho pedagógico, da equipa EMAI, de reuniões com professores, do apoio a elementos do corpo docente e não docente mais fragilizados, do atendimento aos alunos, do apoio aos alunos e encarregados de educação para a inscrição nos exames, de entrevistas online a candidatos e do esclarecimento de dúvidas aos encarregados de educação.

 

 

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Quais alguns conselhos que poderão ser dados a um estudante, para garantir a melhor aprendizagem, neste contexto?

É importante ser proativo na aprendizagem, ser autónomo, usar a internet e aproveitar o estar em casa para pesquisar, para ir mais além e aprender mais. Por outro lado, isto deve ser acompanhado pela manutenção/definição de horários e rotinas diárias: quando tomar banho, cumprir o horário das refeições, horas de sono, qual o tempo para estudar, o tempo para fazer outras coisas, como jogar, ver tv, ouvir música, fazer trabalhos manuais, etc...

O ou a estudante deve focar-se no essencial: esta é uma situação temporária e devo procurar os aspetos positivos. Ter um espaço de trabalho para estudar e fazer os trabalhos da escola (mesmo que seja a mesa da cozinha ou da sala) será igualmente relevante. Quando utilizar este espaço deverá estar arrumado, evitando o sofá ou a cama, por exemplo. Por fim, deve estar ligado em rede, mantendo contacto com colegas e professores.

 

E como podem os pais contribuir para uma melhor aprendizagem em isolamento?

Os pais ou encarregados de educação podem supervisionar os pontos referidos e dar espaço e autonomia ao ou à jovem para que seja ele próprio/a a adaptar-se à nova realidade. Contudo, é importante não fazer imposições, ou seja, ir vigiando e mostrando que estão presentes para ajudar.

Nesta fase da adolescência, os jovens costumam ter o seu espaço na escola, com os amigos. Agora estão 24h por dia, 7 dias por semana com a família. A gestão desta nova realidade não é fácil e é preciso encontrar um meio termo, entre a imposição de regras e a "anarquia", para se conseguir ultrapassar este período. Nada tem de ser perfeito, mas tudo terá de se gerir! Já temos uma batalha a travar com o Covid-19, não precisamos de outras guerras.

 

 

 

 

Há alguma mensagem final que queira deixar à comunidade educativa?

A capacidade de adaptação dos professores de toda a Europa à nova realidade é algo impressionante. Tenho a sorte de participar em vários grupos de professores de projetos Erasmus+ e, tal como em Portugal, nos outros países da Europa, muitos professores já têm mais de 50 anos. Se, até meados de março, a elaboração dos projetos em conjunto era feita por contributos por e-mail e whatsapp, agora cooperamos por Zoom e outras tecnologias.

Depois disto, as escolas vão mudar. A Covid-19 veio forçar os professores a aderir, num espaço muito curto, às novas tecnologias. Apesar do stress e ansiedade causados nos primeiros dias, vai dar um importante contributo para a vida nas comunidades escolares, nos próximos tempos.

Para os jovens, uma última mensagem: apesar de não estarem fisicamente com os vossos avós telefonem, usem o whatsapp ou outras formas para se verem uns aos outros. Ensinem-nos com paciência a usar as novas tecnologias e façam reuniões de família online ou sessões de ginástica em grupo. Sejam criativos!

 

Ana Baio é psicóloga escolar no INETE - Instituto de Educação Técnica, em Lisboa.