A psicóloga no Agrupamento de Escolas Paulo da Gama, no Seixal, Ana Leonor Paiva, detalha algumas das ações importantes a tomar, em tempos de isolamento.

Quais poderão ser algumas das consequências resultantes da situação de isolamento?

É expectável que esta pandemia provoque ansiedade, medo e preocupação. Existe um vírus que se desconhece e não se controla, uma situação de isolamento e distanciamento social, bem como com todas as outras medidas que são necessárias respeitar (a interrupção nas atividades letivas presenciais, a interrupção dos apoios diretos e presenciais em psicologia, por exemplo). Embora, na maior parte dos casos, estes sentimentos sejam normais e não sejam graves, são desconfortáveis e há quem possa sentir dificuldade em ultrapassá-los. Face à grande exigência emocional e de capacidade de adaptação, é de esperar um aumento de pessoas com problemas de Saúde Psicológica isto para além do agravamento dos problemas nas pessoas que já os têm. Desta situação, nascem ainda outros riscos e problemas como a desinformação, o estigma e a discriminação, o aumento do consumo excessivo de álcool ou os conflitos familiares.

 

Como podemos identificar estas consequências? A que devem pais e encarregados de educação estar atentos, por exemplo?

Os pais, que em princípio estão a passar mais tempo com os seus filhos, em casa, deverão estar atentos a alterações drásticas nos seus comportamentos. Se sentem que os seus filhos estão demasiado inquietos e se estes sentimentos de inquietação forem excessivos e persistentes, deverão tentar conversar com eles e procurar tranquilizá-los. No caso de não conseguirem deverão então procurar ajuda. A questão da ansiedade é também muito importante, quando um adolescente se sente ansioso durante longos períodos de tempo, se a ansiedade o estiver a impedir de funcionar e fazer a sua rotina, se sentir que está a ficar sem controlo, então deverá procurar ajuda profissional.

 

Isolamento

 

Nesse sentido, que tipo de auxílio está disponível para os estudantes e encarregados de educação que sintam que necessitam de ajuda?

Com a interrupção das atividades letivas presenciais, e após saírem diretrizes da OPP sobre o apoio em psicologia não presencial, no caso do meu Agrupamento de Escolas e do Serviço de Psicologia onde exerço funções, foi enviado um e-mail a todos os encarregados de educação do Agrupamento (ao nível do 2.º e 3.º ciclo de escolaridade) e foi também colocada informação na página de Internet do Agrupamento, sobre qual a melhor forma de entrarem em contacto com o Serviço de Psicologia.

Procurando a forma mais prática de manter contacto com os alunos do Agrupamento que necessitem de apoio não presencial, criei uma conta no Instagram para que os alunos possam facilmente contactar comigo por mensagem. Nessa mesma conta, vou colocando publicações que promovam uma atitude de tranquilidade informada e que contribuam para a redução do pânico e promoção do bem-estar dos nossos alunos e da comunidade educativa. Outra forma de contacto é através do email, onde os encarregados de educação, pais e alunos, poderão solicitar outro tipo de apoio, deixar o seu contacto telefónico, de forma a serem agendados atendimentos de forma não presencial.

 

Qual o papel que as redes sociais poderão ter no contexto referido?

Acredito que as redes sociais e as plataformas digitais têm tido um papel importante neste contacto. No entanto, não nos podemos esquecer que nem todos os alunos têm equipamento informático e, numa situação de crise económica, dificilmente terão também acesso à rede móvel nos seus telemóveis pessoais.

 


«Os estudantes devem perceber que esta é uma fase, ainda que, por enquanto, não tenha data para terminar. Mas que está a afetar as suas aprendizagens, que serão fundamentais para o seu dia-a-dia e para o futuro»
Ana Leonor Paiva, Psicóloga Escolar


Existem boas-práticas para estudantes que possam contribuir para uma melhor aprendizagem?

Os estudantes devem perceber que esta é uma fase, ainda que, por enquanto, não tenha data para terminar. Mas que está a afetar as suas aprendizagens, que serão fundamentais para o seu dia-a-dia e para o futuro.

Para garantirem alguma estabilidade é importante que os estudantes, em primeiro lugar, criem um horário de estudo, que não tem de ser necessariamente igual ao que tinham de forma presencial, pois é muito importante que não fiquem um dia inteiro em frente a um ecrã. A rotina dos estudantes deve incluir ainda uma hora para acordar e ir dormir, devem continuar a comunicar com os amigos e também ajudar os adultos nas tarefas em casa (adequando as tarefas e as responsabilidade à faixa etária).

E que papel podem ter os pais e encarregados de educação na criação desse ambiente propício à aprendizagem?

Os pais e encarregados de educação que conseguirem deverão disponibilizar um espaço físico na casa para essas aprendizagens, um local mais recatado onde o estudante se possa e consiga concentrar. A questão da alimentação também é fundamental: uma alimentação equilibrada, principalmente no caso das crianças e adolescentes, é um dos aspetos fundamentais para manter uma boa saúde física e mental.


Que mensagem gostaria de deixar aos estudantes?

É importante que os estudantes percebam que o isolamento não vai durar para sempre. É verdade que algumas coisas da nossa rotina foram e serão alteradas, mas esta situação poderá servir, por exemplo, para que dêem mais valor aos seus amigos, aos seus colegas, à sua escola ou aos seus professores. Principalmente, é importante que percebam que #vamostodosficarbem 🌈

 

Ana Leonor Paiva é psicóloga no Agrupamento de Escolas Paulo da Gama, no Seixal. É especialista em Psicologia da Educação e Necessidades Educativas Especiais.