A psicóloga escolar no Agrupamento de Escolas de São João do Estoril, Marta Mosca Gonçalves, destaca algumas das consequências do isolamento para os estudantes e encarregados de educação.

Quais podem ser algumas das consequências, do ponto de vista psicológico, anímico e emocional, resultantes da situação de isolamento?

As consequências do ponto de vista psicológico vão divergir, dependendo da situação de isolamento. Um isolamento bem cumprido, num contexto de apartamento num bloco de prédios, terá um impacto substancialmente superior ao isolamento numa moradia com jardim e/ou quintal, por exemplo. Contudo, em termos gerais, o isolamento deverá ser pautado pelo estabelecimento de rotinas, que incluam momentos de contacto social à distância, bem como com familiares mais próximos. Caso contrário, poderá levar a futuras dificuldades de interação social, ansiedade ou depressão. Nestas situações, podem-se ainda desenvolver mais acentuadamente as adições por jogos online ou por redes sociais com interação limitada.


A que tipo de comportamentos devem os pais ou encarregados de educação estar atentos, na identificação destas consequências?

Estar atento e presente é essencial. Os pais devem atentar ao agravamento gradual de situações de isolamento ou de conflito, de irritabilidade excessiva, às rotinas de sono desreguladas e até a sinais físicos como perda de apetite e/ou palidez exagerada. Devem estar atentos à possibilidade de o ou a jovem se isolar sem necessidade no quarto e à eventualidade evitar contacto social em casa (interação com os pais ou irmãos) ou ainda de passar demasiado tempo envolvido nas mesmas atividades (ver séries, utilizar redes sociais ou jogos online, por exemplo).

 


«[O isolamento] poderá levar a futuras dificuldades de interação social, ansiedade ou depressão. Nestas situações, podem-se ainda desenvolver mais acentuadamente as adições por jogos online ou por redes sociais com interação limitada»
Marta Mosca Gonçalves, Psicóloga Escolar




Que tipo de auxílio está disponível para os estudantes e encarregados de educação que sintam que necessitam de ajuda? E de que forma é que os psicólogos escolares continuam em contacto com a restante comunidade educativa?

Existem vários espaços online de ajuda e, neste momento, está a ser criada uma linha de apoio psicológico para este tipo de necessidades. Os psicólogs escolares continuam em contacto através do envio de emails coletivos, seja através dos diretores de turma, seja diretamente para alunos e/ou encarregados de educação. Indiretamente, existe um apoio através da pesquisa de atividades a desenvolver sem sair de casa, sugestões de como diversificar as atividades em situação de isolamento social. Por outro lado, estão a ser agilizados outros meios, como a criação de linhas de apoio, através de telemóvel, salas de chat ou ferramentas de reuniões online, de grupos de WhatsApp, de websites com informação pertinente e atualizada.


Quais são algumas boas-práticas que os estudantes poderão cumprir, de forma a garantir a estabilidade necessária para a aprendizagem?

É essencial manter a rotina: é este o ponto de partida. Estabelecer de início uma rotina viável para a dinâmica familiar e escolar e mantê-la. Obrigar-se a manter bons hábitos de sono, de higiene e de atividade física. Será uma ótima oportunidade para colocar a leitura em dia, ou qualquer pequeno projeto pendente (manualidades, um blog, cozinhar) e de fortalecer as relações familiares. Planear os dias de estudo mediante o trabalho enviado, as aulas presenciais online e os prazos estabelecidos, ir definindo prioridades e gerir o tempo que sobrar tirando dúvidas através da consulta online, de livros ou enciclopédias que se tenham em casa, de um familiar ou amigo ou colega mais hábil. É importante nunca esquecer de intercalar o trabalho com momentos de lazer, de descanso e evitar sobrecarga de utilização de aparelhos eletrónicos, muito menos imediatamente antes de dormir. Por fim, é essencial consultar informação sobre o estado atual junto de fontes fidedignas.

 

É essencial manter a rotina

 

E que papel podem ter os pais e encarregados de educação na criação desse ambiente propício à aprendizagem?

Os pais devem apoiar (mais ou menos, dependendo da autonomia dos filhos) a criação da rotina, até porque será necessário negociar a utilização de equipamentos e de espaços, bem como as horas das refeições. No seu dia-a-dia, devem ter um pouco de tempo para monitorizar e apoiar as dúvidas dos filhos, permitir que ganhem um pouco mais de autonomia relativamente ao estudo e à organização e planeamento. Ajudar a estabelecer prioridades e ao final do dia, analisar conjuntamente como estão as várias tarefas a decorrer para eventuais ajustes de prioridades também podem ser boas práticas. Será essencial criar, logo de início, um espaço próprio de trabalho, nem que seja um canto da sala ou do quarto e ter condições de luz, temperatura e silêncio para a realização das atividades escolares.


Há alguma mensagem que queira deixar à comunidade educativa?

Este é um momento para parar. Para respirar fundo e perceber que o ritmo que tínhamos estava completamente errado. Era desgastante o ritmo do nosso dia-a-dia. É tempo de balanços, de fortalecer laços, de redefinir prioridades. As novas gerações, do "é para agora" foram obrigadas a abrandar o ritmo. A repensar a importância das interações sociais. A importância da rotina e da Escola. A importância dos professores e das aulas presenciais. De como é tudo relativo, a saber ser mais tolerante e evitar conflitos. Saber viver com os outros. Gozar a vida e não passar por ela. Temos de olhar para o momento atual e retirar dele as aprendizagens possíveis. E ver o lado positivo da situação atual.


Marta Mosca Gonçalves é psicóloga escolar no Agrupamento de Escolas de São João do Estoril